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8 de maio de 2025

Sobre sinastria e Bauman

“O clarão do Sol
Mostra bem quem é você.
E o que você sente
Muda como fase da Lua.
Mas quero saber:
O que está havendo em Vênus?
E Marte bate o martelo,
Sentenciando nossa sinastria.”

Sei que sinastria é um estudo astrológico que analisa a compatibilidade entre duas pessoas. Indica os pontos de harmonia, as dificuldades, as tendências de um relacionamento. Os principais aspectos analisados são com relação ao Sol, à Lua, a Marte, a Vênus e ao Ascendente. Porém, não sou astróloga. Não posso ir além disso na explicação.

Não quero discutir astrologia aqui. O que acho interessante é a ilusão de controle numa situação amorosa por meio de um mapa.
Um mapa qualquer pode ser instrumento útil para traçar rotas, organizar caminhos...

Agora, existe um modo de premeditar a rota quando o assunto é o amor? Eu posso agir diante do outro com um plano elaborado. Só que “Bom encontro é de dois”, canta Vanessa da Mata. O amor é caminho caminhado por dois agentes, por duas gentes. Se for um caso poliamoroso, tem muito mais pessoas envolvidas!

Bauman no seu Amor Líquido aponta a ilusão de viver um relacionamento como uma transação comercial, investindo e esperando um retorno garantido. É a ilusão de controle. Mas, ele indica que quando o amor é aplicado como um investimento seguro, perde suas potencialidades e a ansiedade que havia antes de se ter um “amor seguro” retorna com outros nomes.

Quer dizer, será que é garantido o sucesso romântico, mesmo tendo um “raio X” do outro ou existindo um mapa de como seguir com aquela relação do melhor modo possível?

Eu acredito que um amor só pode ser vivido de maneira expansiva, sem medida, se a gente confia no acaso, sustenta o que não se sabe e o que nunca saberá. Pra viver uma experiência romântica, é bom ter a disposição com o imprevisto. Se a gente vai se sair bem com os possíveis desencontros, inseguranças, são outros quinhentos. Longe de mim achar que é simples “se jogar numa relação sem preocupações ou medos”.

“Mas o céu não é limite
Se a gente acredita
Que o acaso é o mapa
Pra amar sem medida.”

É interessante ver a forma como “conhecemos” alguém hoje em dia. Tinder, Instagram e até Twitter. O acaso é substituído por filtros, algoritmos. Há quem levante o mapa astral da pessoa, há também quem trace um perfil do outro através do que vê nas redes sociais. Fazer sinastria é o de menos. A questão é como o amor está sendo procurado e, quando encontrado, como é investido.

Não vou ser mentirosa e dizer que não desejo segurança num relacionamento, porém, reconheço que nenhum posicionamento dos astros vai me livrar de viver um amor com riscos. Posso mirar estrelas e planetas, mas sei também que talvez eu possa cruzar com meteoros e até colidir com cometas. 

 * * *

co·me·ta
sm
1 Astr Astro de fraca luminosidade, formado por um conjunto de partículas sólidas cobertas por uma camada gasosa, que gira em torno do Sol em inclinação mais acentuada, e pode apresentar uma cauda, de tamanho calculado em milhões de quilômetros, ao se aproximar do astro solar, descrevendo órbitas alongadas; estrela de rabo.
2 fig Qualquer coisa ou pessoa que aparece e desaparece rapidamente.

Obs. 1: Os trechos destacados como citação no texto fazem parte de uma música minha chamada "Sinastria".
Obs. 2: Super indico escutar "Um pequeno imprevisto" dOs Paralamas do Sucesso.

7 de maio de 2025

Sobre Lady Gaga e Roland Barthes

Tentei ser fotógrafa, mas algo sempre me escapava na hora de reter um instante. Prefiro deixar essa missão para minha amiga Ana Clara, que é uma fotógrafa com habilidade de “congelar” cenas de maneira primorosa. Aliás, como seu nome tem “Clara”, lembro de um livro que li na época em que tentava ser fotógrafa: A câmara clara, do Barthes.

Barthes propôs dois conceitos interessantes nessa obra: studium e punctum.

O studium seria uma foto que carrega uma informação mais objetiva; o espectador olha e compreende a intenção do fotógrafo. Acontece muito no fotojornalismo: você vê a imagem de pessoas em um dia de eleição presidencial, numa fila para votar, e entende a informação.

Já o punctum é o que fere. É um detalhe que toca o espectador no coração; algo subjetivo, inesperado, que depende de quem olha. É uma espécie de pontada na alma.

Agora me vem à cabeça (ou ao coração?) a música “Vanish into you”, da Lady Gaga:

“Vi seu rosto e o meu em uma foto ao lado da nossa cama,
fazia frio no verão.
Do alto de uma colina, você me chamou.
Um casal se arrepende do seu tempo juntos.
Raramente eu te esqueço.”

Aí está o punctum da Lady Gaga. Quantas vezes não vemos uma foto representando uma trivialidade — e, ainda assim, ela nos fere profundamente, porque nosso verão está congelante?

“Vi seu rosto e o meu em uma foto ao lado da nossa cama,
fazia frio no verão.
Estávamos felizes por simplesmente estarmos vivos.
Posso desaparecer em você?
Como um fantasma, posso desaparecer em você?”

Lady Gaga nos faz lembrar que, apesar de um verão congelante, podemos nos sentir vivos ao lado do ser amado. E, contraditoriamente, essa sensação maravilhosa de estarmos vivos ao lado de alguém pode nos levar ao desejo de autodestruição total — de morte. Não se trata apenas da vontade de se fundir ao outro, mas de fazer desaparecer o próprio eu, para que a noção de separação se dissolva por completo. Qualquer ameaça ou constatação de distância deve ser evitada.

“Você está me vendo?
Você está me vendo agora?”

Nossa diva pop pergunta desesperadamente na música e eu questiono: pra que ser vista por alguém que me faz querer dissolver meu próprio eu? Que desejo de morte é esse?

Nosso filósofo francês Barthes diz que a fotografia é um quadro vivo em que vemos os mortos. É vivenciar o que pode doer bastante: algo que passou, mas que insiste em se fazer presente. E Lady Gaga canta isso lindamente em Vanish into you.

E agora penso: por que será que não consegui ser boa fotógrafa?
Talvez tenha sido o medo de lidar com o momento, esse instante que, ao ser registrado, já morreu.

* * *

2 de maio de 2025

Sobre uma música feita na juventude

Pensamento já distante,
Tão distante quanto o céu,
Que nas nuvens se faz chuva
E inunda meu quintal.

Na janela posso ver
As lembranças condensadas,
Que, por sorte, eu bem sei,
Evaporam feito água.

Nem por isso chorarei.
Tudo volta, tudo passa.
Nada fica, mas deixa marca.

Nem por isso sorrirei.
Tudo volta, tudo passa.
Nada fica, mas deixa marca.


Escrevi essa letra aos 22 anos e fico impressionada com o quanto a entendo melhor hoje do que na época em que a compus.

A frustração de ver os pensamentos retornando de maneira tão real, como chuva inundando o quintal, mesmo depois de tentar jogá-los para longe (para o céu), ainda me acompanha. Mas, por algum motivo, não brigo mais com isso.

Não brigo mais porque compreendi que não há garantias de que os afetos acumulados (lembranças condensadas), que, por sorte, evaporam feito água, possam ser controlados ou eliminados por completo.

Não brigo mais porque percebo que racionalizar tudo, sustentando uma espécie de neutralidade para manter distância e organização do que se sente (nem chorar, nem sorrir) dá apenas a falsa sensação de controle.

Afinal, se tudo volta, é porque nunca passou de verdade.

* * *

A música completa foi lançada no YouTube em 2013. A letra supracitada é a primeira parte, escrita por mim e a outra parte da canção que pode ser ouvida no link, foi escrita pelo meu amigo Rafael Lourenço.

Ouça "Tempestade", da banda Odara Folk.


27 de abril de 2025

Sobre navios

De tanto chorar, a dor virou mar.
Não tem mais pesar.
Já sei flutuar em águas calmas, livre das tuas tempestades.

Se eu sentir tua falta, lembro das tuas metades.

Sou dos oceano, e os oceanos não são submissos.
Eu não me engano mais com teus compromissos.

Você me fez um barco pequeno, onde nem cabiam meus vazios.
Depois que você se foi com os meus remos,
me tornei um navio.

* * *

na·vi·o
sm
1 Náut Embarcação de grande porte, destinada à navegação em mar aberto.

21 de abril de 2025

Sobre a constelação

Era domingo à noite. Faltou luz. A escuridão se instalou.

Eu já sabia onde estava cada coisa dentro de casa: o tapete gasto, os móveis recém limpos, as gavetas entreabertas. Mas, na repentina falta de iluminação, fiquei aflita e sem direção.

Procurar vela? Encontrar lanterna?
Não.

Decidi sair pela rua, sem pensar nos perigos do Rio de Janeiro. Agora, eu era um animal sem coleira, não domesticado. Segui até a praia.

Pisei na areia.
Meus pés que tocavam a areia ou a areia que tocava meus pés?

Ouvi o mar.
O vai e vem das ondas trazia ou levava o silêncio?

Suspirei a brisa.
Eu inspirava a maresia ou ela estava me inspirando?

Fitei o céu.
Não via estrelas há tempos.

“É bem verdade que a constelação é melhor vista quando não há luzes artificiais”, pensei.

Era domingo à noite. Como pude encontrar clareza na escuridão?

* * *
cons·te·la·ção
sf
1 Grupo de estrelas fixas, ligadas, a partir de um efeito de perspectiva na Terra, por linhas imaginárias que os antigos acreditavam formar diferentes figuras nos mapas celestes.
2 Região da esfera celeste onde se concentra um grupo de estrelas.
3 por ext Grupo, coleção ou reunião de coisas que se caracterizam por partilhar uma qualidade comum, de modo que se constitua em um todo coerente.
4 por ext Grupo de pessoas excelentes, brilhantes, famosas.
5 Conjunto de fatores ou fenômenos responsáveis por determinada influência.
6 Astr Subdivisão do mapa celeste, num total de 88, que a União Astronômica Internacional normatizou.
7 Ling Conjunto de palavras relacionadas entre si por meio de um traço semântico.

19 de abril de 2025

Sobre Byung-Chul Han

Li A agonia do Eros, do Byung-Chul Han.
Entrei em agonia

Talvez tenha sido uma leitura inapropriada pro meu estado emocional. Ou talvez tenha sido o que eu precisava: um espelho que não devolve uma imagem confortável.

No livro, Byung (sim, somos íntimos agora) escreveu sobre a Sociedade do Desempenho e do quanto ela exalta o fato de sermos produtivos, livres, resilientes. Enfim, poderosos e com controle da nossa própria vida!

Byung vai falar que Eros, o Amor, é a relação com o outro que não se baseia em desempenho, controle ou poder. Quando "não podemos", somos vulneráveis. O amor se manifesta quando não podemos tudo. A gente deixa de ser o "Rei Sol", onde tudo e todos nos orbitam e abre-se espaço para o outro aparecer. E pra amar é importante ter um outro. Afinal, Vanessa da Mata já diria: "bom encontro é de dois".

E cadê esse outro, então?

Para que o outro apareça, é preciso haver alteridade, essa capacidade de reconhecer o outro como alguém que não se reduz ao próprio espelho.

E como sustentar alteridade em um mundo em que, como canta Caetano, "Narciso acha feio o que não é espelho"?

A busca  que se vê hoje em dia é pela garantia de ver um reflexo que confirme certezas, que mostre amores que não baguncem nada por dentro.

As redes sociais, os discursos de amor próprio (muitas vezes distorcidos), os apelos à “paz interior”, tudo isso cria um lugar onde o outro só é bem-vindo se for agradável, funcional, terapêutico. Amores são colocados na função de puro deleite, amores bonitos são "fitness".

Aliás, há uma linha tênue entre viver amores com saúde e viver amores assépticos.
Vivemos um tempo que exige amor asséptico.

Livre de riscos.
Livre de conflitos.
Livre de febres.

Um amor que não adoece porque não se arrisca.
Um amor que não fere porque não se aproxima o suficiente.

Na primeira “sujeira”, é preciso ir embora.
O outro vira um invasor do bem-estar, um corpo estranho ao conforto emocional.

Falta “saúde” no outro.
E a falta não é tolerável.

Só que Eros vive da falta.

Ele nasce da carência, do vazio, da tensão entre o que se deseja e o que nunca se alcança por completo.
O amor verdadeiro exige entrar em contato com o que temos e com o que não temos.

Lembrei da história de Eros e Psiquê, inclusive.

Ele se aborrece quando ela quebra o pacto de não ver seu rosto, não apenas por orgulho ou vaidade, mas porque ali, naquele gesto, Psiquê não consegue suportar o não-saber.
Ela precisa ver, precisa garantir, precisa controlar.
Eros vai embora dizendo: "O amor não sobrevive sem confiança".

Confiar no amor não é ter garantias.
É aceitar o percurso no escuro, de mãos dadas.
É amar mesmo com os rostos na noite, e sem velas acesas.

O amor é um barco que navega entre dois corações ilhados por um mar desconhecido.
Não se pode aterrar o mar, mas se pode lançar uma embarcação.
E torcer para que haja o vento do desejo.

Voltando ao Byung.

Se não nos deixamos atravessar pela alteridade, se não suportamos as pausas, as faltas, os espaços, não encontraremos o outro.

Apenas nós mesmos.
Disfarçados de encontros.

Então vem a solidão.
Aquela que ninguém mostra no story.
Vem a melancolia.
O looping dos vídeos de superação de término.
A busca por novos rostos familiares, novos espelhos que nos devolvam, ao menos por um tempo, a ilusão de completude.

O tempo passa e Eros agoniza.
Eu também agonizo.

Porque amar ainda tem a ver com falta.
E falta, hoje, virou patologia. 

* * *

al·te·ri·da·de
sf
Filos Característica, estado ou qualidade de ser distinto e diferente, de ser outro.

18 de abril de 2025

Sobre caixa de presente

Quando somos dispensados com carinho e cuidado, a ambivalência nos abraça dizendo: “você é importante, mas não cabe mais aqui”.

Sabe aquela caixa linda que guardamos por anos no armário?
A caixa que embalou um presente, que carregou surpresa, memória, amor?
Um dia, por falta de espaço, ela é descartada.

Tem momentos em que nos sentimos como essa caixa.

Uma caixa linda — de papel firme, cores delicadas — que vai para o lixo.
Não porque perdeu seu valor, mas porque não há mais onde colocá-la.

Ela pode ser recolhida por alguém na rua e virar artesanato.
Ou pode ser esmagada por um caminhão de lixo.
Ou, talvez, antes de chegar a qualquer destino, se desfaça na chuva que resolveu cair.

A caixa linda vira qualquer coisa.
Menos a caixa que foi guardiã de um presente.
Presente — aliás — que ficou no passado.

E o que fazer quando nos sentimos como essa caixa?

Eu não tenho resposta pronta.

Só sei que passa.

Não sei quando.

Só sei que fico com titio Freud:

“Lembrar, repetir e elaborar.”

Passa.

* * *

am·bi·va·lên·ci·a

sf

1 Qualidade ou condição do que é ambivalente ou do que apresenta simultaneamente valores antagônicos.

2 Psicol Coexistência de sentimentos opostos diante do mesmo objeto (p ex, amor e ódio, desejo e repulsa).

3 Sociol Atitude que oscila entre valores diversos e, às vezes, antagônicos.